Uma abordagem para guiar a educação pela saúde planetária

Texto traduzido por Extensão Natural, com redação original disponível em The Lancet Planetary Health 2021.


Texto original por Carlos A Faerron Guzmán, A Alonso Aguirre, Barbara Astle, Enrique Barros, Brett Bayles, Moses Chimbari, Naglaa El-Abbadi, Jessica Evert, Finola Hackett, Courtney Howard, Jonathan Jennings, Amy Krzyzek, Jessica LeClair, Filip Maric, Olwenn Martin, Odipo Osano, Jonathan Patz, Teddie Potter, Nicole Redvers, Noortje Trienekens, Sarah Walpole, Lynda Wilson, Chenchen Xu, Matthew Zylstr


As pessoas ao redor do mundo estão continuamente lidando com o aumento das pressões e desafios da atual crise ambiental, social e de saúde. A pandemia da COVID-19 foi um chamado importante para nos lembrar que precisamos de um planeta saudável para garantir a saúde de todas as pessoas (1). O campo emergente da saúde planetária é uma abordagem para a compreensão dessas conexões e identificação de soluções para desafios complexos que confrontam nossa civilização. A construção do papel único e da responsabilidade das instituições educacionais no delineamento dos nossos futuros deve ser inserir a educação em saúde planetária nos currículos como passo essencial para a transformação necessária. A educação em saúde planetária através de todos os níveis de ensino e disciplinas deverá equipar e permitir que aprendizes fortifiquem ações transdisciplinares e de que gerem reciprocidade para proteção e restauração da saúde planetária e viabilização dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (2).


No entanto, uma abordagem compreensiva para guiar instituições, educadores e estudantes não existe. Para lidar com essa lacuna, uma força tarefa da vanguarda do pensamento em saúde planetária e educação foram convidados pela Aliança pela Saúde Planetária para criar a Abordagem Educacional pela Saúde Planetária (em breve). O trabalho dessa força tarefa aconteceu entre Dezembro de 2019 e Fevereiro de 2021.


Esse grupo buscou a construção de 12 princípios transversais para a educação pela saúde planetária para criar uma abordagem que atue como uma linguagem fundamental comum entre disciplinas e setores, assim como geografias, e atua como referências para diversas estratégias educativas (3). Essa abordagem pretende avançar a lista prescrita de competências para o reconhecimento das diversas instâncias (ex.: o porquê [afetivo], o que [representações], o como [estratégias]) que delineiam a educação pela saúde planetária. A abordagem é uma interpretação organizada e dinâmica da abrangências da educação pela saúde planetária. Ela promove uma práxis, métodos de ensino participativos, e caminhos de aprendizagem únicos que respondem aos contextos socioambientais, prioridades locais, tecnologias e recursos disponíveis em cada ambiente de aprendizagem.


Essa abordagem facilita a criação de um espectro diverso de programas educacionais e recursos de aprendizagem em saúde planetária. Nós colocamos as instituições de ensino superior como centrais pela sua posição única dentre as sociedades ao redor do mundo, como fontes respeitáveis de pensamento inovador, e como partes interessadas fundamentais para a implementação desses esforços. A abordagem é relevante para estudantes de todos os níveis do ensino superior.


A Abordagem Educativa pela Saúde Planetária considera cinco domínios fundamentais em que acreditamos que envolvam a essência dos conhecimentos, valores e práticas em saúde planetária (figura).



Primeiro, a interconexão com a natureza.


Fomentar a compaixão pelo planeta Terra pelo reconhecimento dos aspectos pessoais, cognitivos, sociais e emocionais do processo educativo é elemento central desta abordagem. A interconexão com a natureza é uma opção pela qual o cognitivo (o senso de conexão), o afetivo (o componente de cuidado) e os comportamentos (o compromisso com a ação) são integrados na formulação de estratégias educativas transformadoras (4). Como parte desse domínio, combinar caminhos de saberes, como aqueles Indígenas ou orientais, poderá facilitar a emergência de benefícios compartilhados para indivíduos, comunidades e para nosso planeta (5). Esse domínio reconhece a diversidade de conhecimentos e tradições espirituais, particularmente de povos Indígenas que ensinam a profunda reciprocidade na interconexão com a natureza.


Figura: A Abordagem Educativa pela Saúde Planetária. No centro da abordagem encontram-se os cinco domínios da educação pela saúde planetária, representados de forma entrelaçada, como nos nós de uma corda. Ainda que esse modelo represente os domínios de forma separada, a realidade da saúde planetária demanda a nossa compreensão do caráter de interdependência e interconexão com a natureza em cada domínio. A divisão dos domínios é artificial e aplicada somente para fins didáticos.



Segundo, o antropoceno e a saúde.


O antropoceno é caracterizado pela interrupção massiva dos processos dos sistemas terrestres, resultando no escalonamento da pegada ecológica humana. 6 Esse domínio foca na compreensão de como impactos antropogênicos específicos nos sistemas naturais da Terra são relacionados aos resultados na saúde humana. A compreensão das relações entre o antropoceno e saúde requer uma metodologia socioecológica na promoção de saúde, prevenção de doenças e controle individual e populacional dos determinantes da saúde humana, animal e dos ecossistemas.



Terceiro, pensamento sistêmico e complexidade.


O campo da saúde planetária é relacionado às abordagens de pensamento sistêmico que estão há tempo sob foco do campo da ecologia e descreve como vários elementos interagem e se retroalimentam como parte de sistemas complexos.7 Dentro da saúde planetária, e para os propósitos dos processos educativos, é essencial caracterizar as relações entre mudanças ambientais e saúde humana em diferentes escalas geográficas e temporais. Fazer isso requer uma compreensão baseada em sistemas que possa incorporar as características de um sistema complexo e adaptativo (ex.: relações causais não lineares ou circulares, pontos de inflexão ou estratégicos, propriedades emergentes e auto organização). Dentro desse domínio, estudantes trabalham em direção à auto percepção para reconhecer os próprios vieses nas bases epistemológicas.



Quarto, equidade e justiça.


Equidade e justiça na saúde planetária são fundamentados nos direitos humanos e direitos da natureza, dando a todas populações humanas e ecossistemas, presentes e do futuro, a oportunidade de alcançar sua vitalidade completa. A compreensão da equidade e justiça requer a eliminação das desigualdades sistêmicas para que nenhuma população carregue fardos excessivos de impactos ambientais e de saúde enquanto outras podem prosperar.8 Os processos educativos devem compreender as desigualdades estruturais e como as injustiças históricas e políticas, incluindo o colonialismo de assentamentos, a supremacia branca, o racismo, o patriarcado e o capitalismo e neoliberalismo tem contribuído para a privação de direitos e para a degradação ambiental. Os praticantes futuros da saúde planetária devem ser capazes de reconstruir as instituições (ex.; legais, de cuidado com a saúde e educativas) que promovem e reproduzem as inequidades que delineiam as condições de vida no planeta.



Quinto, construção de movimentos e mudança sistêmica.


A construção efetiva de movimentos é necessária para a solução da urgente crise de saúde planetária. Em oposição à crença popular, movimentos não emergem simplesmente em resposta a um dado momento. Ação requer relacionamentos inclusivos, estratégias premeditadas, comunicação efetiva e parcerias transformadoras.9 Esse domínio busca relacionar esses elementos para que estudantes e futuros profissionais possam construir movimentos efetivos para apoiar transformações sistêmicas e a grande transição para um futuro justo. Mentoria, solidariedade e o desenvolvimento de um conjunto de habilidades concretas contribuem para a redução da apatia, aumento do engajamento e a criação do extremamente necessário movimento para mudança.


Instituições, educadores e aprendizes que incorporem essa abordagem irão precisar transformar as práticas usuais, das concepções fragmentadas sobre educação. Para que as instituições se adaptem à saúde planetária como abordagem para uma relação institucional ampla, contextualizada, transdisciplinar (incluindo a diversidade epistemológica), baseada em soluções, baseada em ações, e com orientação transformadora para educação será necessária a intencionalidade planejada pelas lentes da estratégia, da logística e dos recursos. Essa transformação na educação deverá fomentar comunidades locais e globais no trabalho em direção ao bem estar, justiça e um ambiente de triunfo para todas pessoas.




Texto original disponível em: https://doi.org/10.1016/S2542-5196(21)00110-8