Reapropriação social da Ciência e da Natureza

Atualizado: 1 de Set de 2020

Uma reapropriação por quê? O fato de ser extremamente improvável que você construa um dispositivo, de forma autônoma, para ler este texto é um bom ponto de partida. Apesar do exemplo óbvio, essa é uma pergunta fundamental para refletir sobre os processos que nos trouxeram ao mundo como ele é hoje.


Essas reflexões são importantes ao nos depararmos com constatações como a de que lidamos com dispositivos de tecnologia de ponta, ainda que sem a compreensão sobre como funcionam, quais são seus componentes, por quais processos e lugares passaram e quais foram os impactos socioambientais gerados antes de serem comercializados. Tal incompreensão leva a uma cegueira, literalmente, do âmbito sistêmico (no sentido das relações entre todas as partes) em que se estruturam as formas de relações dentro da sociedade e entre a sociedade e seus ambientes naturais.


A apropriação social de C&T [ciência e tecnologia] exige tanto a aquisição de informação quanto a inserção do público em debates e decisões

— Barbosa, 2011, p. 155.

A citação acima deixa claro que dois processos são necessários para que possamos nos (re)apropriar da ciência enquanto sociedade. O primeiro consiste em obter a informação, de forma que a alfabetização científica, a educação e a educomunicação são essenciais para que ele se efetive. O segundo se dá pela participação social na tomada de decisões. Em contraponto à transmissão unidirecional de conhecimentos e informações e à tomada de decisões apenas por instâncias políticas hierárquicas, a apropriação social da ciência existirá apenas pela “construção conjunta de saberes, a ‘mensagem/diálogo’, identificada pela reciprocidade e decisões compartilhadas” (Barbosa, 2011, p. 155).


Posto isso, o conceito de apropriação social do conhecimento científico é pautado em três premissas:

"Em primeiro lugar, parte-se da compreensão de que as transformações no modo de vida contemporâneo, decorrentes do desenvolvimento científico e tecnológico, não tem propiciado um melhor entendimento público da ciência e da tecnologia. (...)apesar de a ciência e a tecnologia modernas estarem presentes em tudo, têm se tornado cada vez mais esotéricas e compreendidas por um número muito pequeno de pessoas.
Em segundo, considera-se que os processos hegemônicos e massivos de comunicação pública e de formação científica (...) reforçam mitos e alimentam o que os estudos CTS [Ciência Tecnologia e Sociedade] chamam de visão herdada: a ciência como produtora de verdades incontestes, neutra, desinteressada, produto de verificação, que se desenvolve mediante o acúmulo de conhecimentos objetivos, sem influência de fatores exógenos às práticas científicas.
Em terceiro, (...) a instauração de um diálogo no espaço social entre uma pluralidade de atores, discursos, sabedorias, ideologias e práticas presentes na esfera de um mercado simbólico ambientado pelas novas mídias e por relações de domínio e poder, as quais tomam novos matizes na ambientação contemporânea das sociedades do conhecimento, da comunicação e da informação."

— Hayashi, Sousa e Rothberg, 2011.


Essas premissas para a apropriação social da ciência estão no mesmo contexto histórico que torna urgente a apropriação social da natureza. Numa perspectiva semelhante, a reapropriação social da natureza envolve uma reaproximação da humanidade com a natureza: partindo da compreensão sobre seus ciclos e capacidades de suporte ambientais e envolvendo também a tomada de decisão sobre esses recursos, para que se efetive em nível social.


Uma vez que o ser humano se relaciona com o seu meio, através da participação nos sistemas produtivos por exemplo, ele está diretamente relacionado aos seus recursos e condições ambientais, independentemente de seu conhecimento dessa relação. Uma vez que essas cadeias estão ativas, é razoável pressupor que existem pessoas cientes desses processos, ainda que de forma não necessariamente conectada. Em complemento, pressupor que não existem interesses e parcialidades por trás do controle desses processos, como nos lobbies políticos vinculados a empresas detentoras de todas as etapas da cadeia de um determinado produto, envolve um análogo socioambiental à primeira e segunda premissas apontadas para apropriação social da ciência e tecnologia.


Um último ponto importante se dá na aproximação com relação à terceira premissa, sobre falta de participação social na tomada de decisão: é conhecido que os países que mais contribuíram com as emissões dos gases causadores de efeito estufa são os que possuem mais condições para se adaptar às consequências sentidas nas Mudanças Ambientais Globais e mitigar futuros impactos, embora a decisão sobre suas agendas políticas nacionais não se coloque sob a influência dos países e povos mais vulneráveis.


Autores inovadores, como Enrique Leff (Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder, 2002) e Guillermo Foladori (Los limites del desarrollo sustentable, 1999), apontam os caminhos para a sustentabilidade como explicitamente políticos, na medida em que devem promover o combate às desigualdades e iniquidades sociais e econômicas estabelecidas historicamente para, enfim, construir uma sociedade sustentável. É nessa perspectiva em que reafirmamos a urgência de uma reapropriação social da ciência e da natureza e suas tecnologias.


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Citações:

Barbosa XXXXX


HAYASHI, MCPI., SOUSA, CM., and ROTHBERG, D., orgs. Apropriação social da ciência e da tecnologia: contribuições para uma agenda [online]. Campina Grande: EDUEPB, 2011. 323 p. ISBN 978-85-7879-187-2. Available from SciELO Books . Disponível em <https://static.scielo.org/scielobooks/j76hp/pdf/hayashi-9788578791872.pdf>