O que governos podem aprender com as plantas?

O artigo de Stefano Mancuso, chamado “DEMOCRACIAS VERDES”, explica com minúcias como as nossas concepções sobre o mundo podem definir os nossos discursos, organizações e ações. No artigo, que é adaptado do capítulo do livro Revolução das Plantas: Um novo modelo para o futuro, esse autor traça um paralelo brilhante entre a organização das raízes das plantas, o comportamento social de abelhas e alguns traços semelhantes nas próprias organizações humanas.


Partindo de uma distinção inicial entre as plantas e os animais, principalmente pela incapacidade das plantas de um movimento rápido com o dos animais, avalia a descentralização das funções vitais desses organismos como estratégia de sucesso evolutivo. Ou seja, ainda que a planta não possa fugir de um predador que consome suas folhas, apesar das perdas, nenhuma função vital será impedida. Por isso, aponta que:


Em certo sentido, sua organização é a própria marca de sua modernidade: elas têm uma arquitetura modular, cooperativa e distribuída, sem centros de comando, capaz de suportar perfeitamente predações catastróficas e repetidas.

Passando a investigar essa descentralização no mundo animal, Mancuso discute também alguns exemplos das decisões cooperativas entre insetos sociais, como o das abelhas decidindo o lugar da nova colmeia. Para essa convergência na efetividade da descentralização, o autor aponta o termo Estigmergia:


Esse termo refere-se a uma técnica típica de sistemas sem controle centralizado, que adota as mudanças do ambiente como ferramenta de comunicação. (...) A estigmergia, no entanto, não funciona apenas para insetos, e até mesmo a comunicação pela internet, com mensagens deixadas pelos usuários em um ambiente compartilhado, lembra muito esse método de comunicação.

Nesse sentido, a descentralização representa a organização para a criação de uma Inteligência Coletiva, na qual o conhecimento do coletivo é muito mais amplo do que a soma de todos os conhecimentos individuais. Por exemplo, nas raízes, a tomada de informações sobre as variações químicas em regiões diferentes do solo se dá de forma descentralizada, assim como nas buscas dos insetos coletivos por novos recursos.



Foto por Beatriz S. Laham.


Nesse momento o autor contrapõe a noção tradicional de que a natureza é estritamente competitiva a uma concepção orientada pela colaboração e coordenação. Uma vez que esse pensamento possa parecer contraintuitivo, Mancuso argumenta que a própria percepção da natureza depende das percepções humanas:


na natureza, são raras as hierarquias, entendidas como indivíduos ou grupos, que decidem pela comunidade. Nós as vemos em toda parte porque olhamos para a natureza com os olhos de seres humanos. (...) A ideia de que a democracia é uma instituição contrária à natureza, portanto, permanece apenas como uma das mais sedutoras mentiras inventadas pelo homem para justificar a sua antinatural sede de poder individual.

É diante desse contexto, da ordem da criação das percepções humanas conforme interesses políticos sobre o poder individual, em que novas formas de organização podem emergir a partir de uma bioinspiração. Para o autor, a organização das tradicionais cooperativas em associação com as atuais ferramentas para construção de redes são possibilidades para o enfrentamento de problemas complexos.


Por fim, destacamos a potência da noção da Inteligência Coletiva. Uma vez com a inspiração nos fenômenos da natureza que estiveram à prova da seleção natural por centenas de milhares de anos, dos insetos sociais e das raízes das plantas, será possível empreender numa solução inovadora. E que, nessa empreitada, suas práticas se orientem pela colaboração ativa e pela articulação não hierárquica entre cada um dos indivíduos do tecido social.