No que você está pensando? As sobreposições entre Saúde Planetária e doenças do sistema nervoso.

Atualizado: Abr 14

por Stuti Chakraborty, traduzido por Beatriz Sinelli Laham e Luís Gustavo Arruda.


O movimento do presidente Joe Biden para assinar uma ordem executiva orientando que os Estados Unidos voltem a fazer parte do Acordo de Paris sobre Mudanças no Clima como uma decisão inicial simbólica em sua orientação de governo foi recebida com muitos aplausos nas notícias recentes. A decisão pode ser uma medida precisa ao projetar ações rápidas em direção à uma limitação nos níveis de aquecimento global, principalmente guiado pelas indústrias, enquanto o mundo lida com a pandemia de COVID-19 e se aclimata aos efeitos devastadores das mudanças climáticas na saúde planetária.


Mas como essas decisões governamentais amplas, mudanças climáticas, tratados e políticas impactam cada um de nós em nível individual? Como elas aparecem no nosso cotidiano? A resposta é bem simples. Como indivíduos, todas as nossas ações e comportamentos, por mais que pareçam pequenas e insignificantes, são pontos estratégicos para determinar o futuro da vida no nosso planeta. Posto isso, as ações de hoje podem ter impactos no nosso amanhã, e nós já começamos a perceber algumas dessas implicações em todos grandes aspectos da nossa vida, incluindo nossa saúde.



Saúde planetária, gênero e o cérebro:


Nossos pensamentos, emoções, sentimentos, ações e comportamentos são amplamente governados por redes biológicas e neurais subjacentes, reguladas pelo nosso cérebro. Ao falar da saúde humana e bem estar, o funcionamento adequado do cérebro é considerado um dos mais importantes fatores para sobrevivência. Estudos recentes expuseram uma “mudança disbiótica” (“dysbiotic shift”) devido ao aumento de estressores em escala planetária, o que, por sua vez, vem se refletindo em resultados de estresse pessoal biológico e tem implicações como as disfunções no desenvolvimento do cérebro, aumento de crises de saúde mental assim como complicações durante o envelhecimento. Em complemento, um corpo de resultados sobre saúde ambiental apontaram um recorte de gênero, impactando mulheres, crianças e outros gêneros sub-representados — aumentando a distância, então, à consolidação de uma Cobertura Universal de Saúde (UHC).


Imagem por Robina Weermeijer, no Unsplash



O quê a ciência diz?


Pesquisas apontam que o aumento nos níveis de exposição à poluição atmosférica, particularmente entre mulheres, é associado ao mal funcionamento cognitivo, habilidades cognitivas simplórias, aumento da velocidade no declínio cognitivo entre pessoas com mais idade assim como maior demora no desenvolvimento cognitivo. O mecanismo em que isso acontece inicia-se, basicamente, pelo canal nasal-olfativo ou indiretamente, pela circulação sanguínea em nosso corpo. Isso, por si, causa inflamações ao ativar o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) — que é responsável por estimular respostas inibitórias assim como no desenvolvimento de patologias como ansiedade ou depressão. Revisões sistemáticas de múltiplos estudos também demonstraram a vulnerabilidade de certas comunidades, incluindo mulheres em período pós-parto ou durante a gravidez, mulheres de de classes socioeconômicas de baixo status, idosos, refugiados e migrantes impactados em sua saúde mental pelas mudanças climáticas, como no desflorestamento, aumento dos níveis oceânicos, incêndios selvagens, etc.


Outras associações comuns, relacionadas à uma condição insuficiente da saúde ambiental, apresentam-se diante do Alzheimer e da Demência. A literatura recente reitera o aumento do risco de perda de memória e desenvolvimento de encolhimentos cerebrais semelhantes ao Alzheimer entre mulheres vivendo em regiões com elevadas concentrações de PM2.5 (matéria particulada emitida por estações de energia, carros, etc.)


Uma relação clara foi estabelecida entre a Esclerose Múltipla (MS) — uma doença neurológica autoimune com crescente ocorrência no globo, na qual a Mielina, uma substância protetora de revestimento dos nervos e medula espinhal, é destruída pelos próprios anticorpos — e o aumento das temperaturas (sensitividade térmica) entre aqueles diagnosticados com MS. Essa é uma outra doença que impacta mulheres quase quatro vezes mais do que homens, cujas bases poderiam ser relacionadas a fatores como os hormônios femininos. O agravamento das mudanças climáticas pode significar dias mais quentes ao redor do mundo, degradando as condições para portadores dessa doença.


Imagem por Draga Work, no Unsplash



Independentemente da poluição atmosférica, outros determinantes importantes da saúde das mulheres e da saúde ampla, como qualidade da água e segurança alimentar, são diretamente influenciados pelas mudanças no clima, e têm sido investigados considerando seus impactos negativos no cérebro, principalmente em contextos de baixa renda.


Avanços tem sido feitos em direção a direcionar o diálogo entre mudanças climáticas, saúde planetária e inequidades de gênero entre especialidades médicas, como Neurologia e Psiquiatria. No entanto, ainda existe um longo caminho para adequar a integração desses aspectos imperativos no planejamento e condução dos tratamentos. Ao incluir a lente da saúde planetária é possível melhorar a implementação de políticas de saúde em escala global, enquanto também é melhorado o manejo amplo das doenças mentais. Essas prioridades devem estar entre as novas ideias de jovens estudantes de medicina, — os líderes do amanhã!



Sobre a Autora: Stuti Chakraborty atualmente trabalha na Chistian Medical College, Vellore e é aprendiz da Women Leaders for Planetary Health (turma de 2020). Ela é representante nacional do Healthcare Information for All; contribui com o ODS3, assim como no Grupo de Trabalho em Ciência Política da United Nations Major Group for Children and Youth; Também é correspondente nacional da YourCommonwealth e correspondente nacional do IHP Global. Ela também é membra pioneira do lançamento do India Chapter of Women in Global Health. Ela foi uma jovem palestrante da Índia a lançar luzes sobre o tópico “Equidade de Gênero no Sistema de Saúde” da GHWN Youth Hub Online Conference. Stuti representou o país dela em diferentes plataformas incluindo ser uma jovem representante da UN MGCY da Global Conference on Primary Healthcare que acontecceu em Astana, 2018. Com seu trabalho, ela defende a saúde de pessoas jovens com foco particular nos direitos de Pessoas com Deficiências. Ela é membra do conselho de um projeto de pesquisa com a Greener Things, uma organização que trabalha em direção a explicitar os pontos centrais sobre psicologia na transição para cidades sustentáveis e está estudando o impacto das mudanças climáticas em uma série de doenças neurodegenerativas.

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Este texto foi primeiramente publicado pela plataforma da Women Leaders for Planetary Health. Junte-se a este movimento seguindo no Twitter e no Instagram