Mas o que é Saúde Planetária?

Você já ouviu falar no termo “Saúde Planetária”? Aqui na Extensão Natural nós temos um carinho especial por esse conceito, porque acreditamos que essa nova forma de olhar aponta alguns dos principais desafios que enfrentamos, como humanidade, neste mundo de mudanças profundas. Vamos começar com uma pequena analogia para entender melhor sobre o que se trata a saúde planetária.


Imagine que você precisa explicar para alguém como um carro se movimenta na cidade. Para isso, você poderia explicar a função de cada uma das peças, os mecanismos para acelerar e aqueles para frear, como cada uma delas mantem a segurança de quem conduz o carro, da iluminação externa aos air-bags, ou mesmo como o Código Brasileiro de Trânsito organiza o fluxo nas ruas e avenidas, com velocidades mínimas e velocidades máximas, por exemplo. Mesmo que você explicasse tudo isso de forma separada, e muitos outros elementos, ainda faltariam algumas partes importantes sobre como funcionam as integrações desses elementos — por exemplo, as integrações do sistema elétrico com os sistemas de movimentação ou entre o planejamento urbano, suas regulamentações e seus impactos nos horários de pico no tráfego de automóveis.


Saindo um pouco dessa analogia, o que é importante aqui é entender que as partes, por si, não explicam totalmente o funcionamento do que queremos entender: do movimento do carro na cidade às mudanças socioambientais em curso, e é sobre esse segundo tema que vamos focar daqui pra frente. Para esse olhar integrado, sobre as interações e processos dos elementos em conjunto, a comunidade científica identifica o nome de Sustentabilidade Complexa, que é um dos princípios da Extensão Natural. Ou seja, deixando a compreensão das partes separadas para passar a analisar a relação entre elas, é possível entender efeitos mais amplos em seus processos, no que é chamado perspectiva sistêmica.


É possível que quem esteja lendo ache que estamos falando de teorias da conspiração, sobre “o sistema”. Ao invés disso, apontamos algumas perspectivas científicas mais recentes, como na Teoria da Complexidade (Morin, 2015 em Rocha e Luzio-dos-Santos, 2020), na Ecologia Social (Bookchin, 2005), na Racionalidade Ambiental (Leff, 2002) ou na Educação Ecológica (Capra, 1998), que afirmam a potência em compreender o olhar para os sistemas. Algumas inovações a partir da compreensão sistêmica já foram abordadas no nosso blog, em Transdisciplinaridade na gestão: da ecologia às políticas públicas e Sindemia e COVID-19, e são cada vez mais aceitas na comunidade científica.


Nesse mesmo contexto teórico encontramos o conceito de Saúde Planetária. Partindo da integração entre a saúde humana e a saúde do meio ambiente, modernizando o que era chamado saúde única, esse conceito evidencia as reciprocidades entre os sistemas políticos, econômicos e sociais na determinação dessas interações e da qualidade de cada um desses elementos. O Dr. Enrique Barros dedicou o primeiro capítulo da dissertação dele para contar a história desse conceito entre a comunidade científica. Você também pode conferir um pouquinho o que ele falou nessa live do Parque CIENTEC da USP, cuja organização apoiamos.



Algumas evidências:


Bom, já que entre cientistas não basta afirmar, mas sim testar a hipótese em questão, nossa equipe destacou adiante algumas evidências sobre o porquê o olhar sistêmico é necessário. Vamos descrever dois exemplos e depois tentaremos integrá-los no contexto das Mudanças Ambientais Globais.


O primeiro tópico que queremos destacar é relacionado à alimentação. Não é necessário dizer que a saúde humana é dependente da alimentação, mas ainda é contra intuitivo afirmar que a saúde do planeta também depende da alimentação humana. Isso acontece porque cada um dos alimentos que escolhemos colocar nos nossos pratos tem uma origem diferente, tanto na sua forma de produção quanto em sua rede de distribuição. A integração de todas essas etapas, incluindo o consumo e a absorção dos nutrientes, chama-se Sistema Alimentar.


O estabelecimento do sistema alimentar convencional, aquele que envolve a maioria dos produtos que estamos habituados a comer, congrega as técnicas e tecnologias que se estabeleceram após a Revolução Verde, difundida nos anos 1960, com produção em larga escala das monoculturas de trigo, arroz e milho e seus amplos impactos ambientais. No Brasil, esse modelo de produção também contou com o condicionamento dos créditos rurais à compra de agrotóxicos, conforme os interesses de mercado da agroindústria.


Esses são antecedentes importantes para compreender a ocorrência simultânea de três pandemias: obesidade, desnutrição e os impactos das mudanças climáticas, o que configura uma Sindemia Global. Comentaremos sobre os impactos na saúde do planeta ao final, mas por hora é importante destacar que os efeitos de todas essas se somam, inclusive, a uma dimensão econômica na determinação dos problemas que enfrentamos hoje. Uma evidência disso é que, com o estabelecimento do sistema alimentar convencional, no Brasil, alimentos nutritivos se tornaram mais caros do que aqueles ricos em gorduras, açúcares e sal e que existe relevância estatística na correlação entre obesidade e insegurança alimentar (FAO e colaboradores, 2020). Ou seja, os sistemas alimentares convencionais tornam mais caros os alimentos mais nutritivos, enfraquecendo a saúde, principalmente, de quem é mais pobre.


O segundo tópico que queremos destacar é sobre as relações entre o avanço das áreas urbanas sobre áreas naturais. É fato que a densidade demográfica nas cidades vem crescendo em relação às áreas rurais, o que implica um maior contato de grande parte da população com os remanescentes de espaços naturais. Esse contato se dá não somente nos parques urbanos, mas também em qualquer espaço que possa prover os recursos necessários ao ciclo de vida de vetores de zoonoses (doenças transmitidas de animais para humanos ou de humanos para animais), como margens de rios e alagados, aterros sanitários ou mesmo pequenos fragmentos de mata nativa.


Esse aumento demográfico na exposição a esses vetores também representa um aumento na probabilidade da transmissão de uma doença que, inicialmente, só contaminava animais nos ambientes silvestres para uma condição em que passe a infectar também humanos e seus espaços. Essa foi uma hipótese importante para explicar o início da contaminação pelo vírus Sars-Cov2 nas imediações de Wuhan, e os indícios levam a crer que pode acontecer novamente. Você pode conferir mais sobre essas relações nessa live.


Imagem por Beatriz Sinelli Laham


Fica evidente, então, a relação entre como os humanos organizam suas casas na ocupação dos territórios, os sistemas imobiliários, e seus impactos na saúde humana. Mas quais seriam esses impactos diante da saúde do planeta?


Como já comentado, destacamos o contexto das Mudanças Climáticas Globais para compreender a saúde da Terra. É consenso entre a comunidade científica que as Mudanças Climáticas são causadas por ações antrópicas, de forma que é pouco prudente questionar a responsabilidade humana, dos sistemas que criamos, nas contribuições para essas mudanças. Tal responsabilidade se estende desde o aumento continuado nas emissões de gases do efeito estufa com origem no crescimento econômico (IPCC, 2014), até os impactos na própria saúde humana. Vejamos um exemplo de como isso acontece:


Com o avanço do sistema alimentar convencional, terrenos de pastos e monoculturas tomam lugar das áreas naturais e seus ecossistemas (principais agentes no sequestro de carbono), aumentando as emissões de gases do efeito estufa. A mudança na temperatura média do planeta decorrente dessas emissões prejudica as dinâmicas de polinização de importantes espécies para a alimentação humana, como o tomate e o feijão, o que irá dificultar a produção desses alimentos. Com menos alimentos disponíveis, as condições de insegurança alimentar irão se agravar, principalmente entre quem é mais pobre.


Diante do aumento da subnutrição, essas pessoas tendem a ficar mais vulneráveis a outras doenças, como as contagiosas por vetores animais. Também se sabe que um dos impactos no aumento da temperatura média do planeta, no Brasil, é facilitar o estabelecimento de vetores dessas doenças, como mosquitos de relevância médica. Com isso, as mudanças ambientais provocadas pelos sistemas humanos se somam, gerando tanto desequilíbrios ambientais como novas vulnerabilidades para a saúde humana.


Pensar nos sistemas pode ser assustador, mas esse olhar também aponta caminhos estratégicos para enfrentar todas essas mudanças. A preservação dos habitats naturais, por exemplo, pode atuar no sequestro do carbono — mitigando as emissões de gases do efeito estufa —, na manutenção dos serviços ecossistêmicos — como na preservação dos polinizadores, que foram responsáveis pela produção de até 12 bilhões de dólares anuais em gêneros alimentares no Brasil (Wolowski e colaboradores, 2019) — ou ainda na formação de uma identidade socioambiental local para ação em defesa desses ambientes — que pode ser facilitada com atividades de Educação Ambiental nesses espaços (Santana e Santos, 2016).


Portanto, pensar no âmbito dos sistemas que estabelecem a saúde humana e do planeta pode explicitar uma diversidade de impactos, positivos ou não, a partir das ações que temos controle. Agora, cabe à gente propor ações que sejam coerentes com o equilíbrio ambiental e social, em todas as suas dimensões, para a manutenção da Saúde Planetária.




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Referências:

Bookchin, M. (2005) The Ecology of Freedom: The emergence and dissolution of Hierarchy. AK Press, Oakland, CA.

Capra, F. (1998) O ponto de mutação. Editora Cultrix.


FAO, IFAD, UNICEF, WFP and WHO. 2020. The State of Food Security and Nutrition in the World 2020. Transforming food systems for affordable healthy diets. Rome, FAO. Disponíel em: <http://www.fao.org/3/ca9692en/CA9692EN.pdf>


IPCC (2014) Climate Change 2014 Synthesis Report, Summary for Policymakers. Disponível em: <https://archive.ipcc.ch/pdf/assessmentreport/ar5/syr/AR5_SYR_FINAL_SPM.pdf>


Leff, E. (2002) Saber Ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. Ed Vozes. 2ª Edição.


Rocha, J. C. M, & Luzio-dos-Santos, L. M. (2020) Sustentabilidade complexa: o discurso da sustentabilidade sob a perspectiva do Pensamento Complexo de Edgar Morin. Revista Eletrônica do Mestrado em Educação Ambiental. Rio Grande, v37 (1), p208-227.


Santana, G. R. de A., & Santos, J. U. dos. (2016). O protagonismo juvenil na conservação da área de proteção ambiental costa dos corais. Revista Brasileira de Educação Ambiental, 11(1), 327–334.

Wolowski, M., Agostini, K., Rech, A. R., Varassin, I. G., Maués, M., Freitas, L., Carneiro, L. T., Bueno, R. O., Consolaro, H., Carvalheiro, L., Saraiva, A. M., Silva, C. I. (2019) Relatório temático sobre polinização, polinizadores e produção de alimentos no Brasil. Plataforma Brasileira de biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos; Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador.