INVENTAR ESQUECIMENTOS – POR NURIT BENSUSAN

reproduzido de ecofalante.org.br


Texto sobre os filmes da temática Povos&Lugares do Panorama Internacional Contemporâneo


Por Nurit Bensusan*


Será que a canoa lembra que já foi árvore? Será que singrando as águas do mar se esquece da terra úmida da floresta? Talvez inventar esquecimentos seja a única forma possível de lidar com o fim de tantos mundos que desaparecem a cada dia. Aqueles que têm seus mundos destroçados inventam esquecimentos para poder seguir vivendo nesse mundo que se quer hegemônico. Os que conseguem resistir, porém, também precisam inventar esquecimentos para acreditar na luta e na possibilidade de vitória.


Fazer uma canoa é uma arte. Exige técnica, claro, mas é a arte que promove o encontro da floresta com o mar. A canoa é uma árvore que se estende a partir da floresta e funde seus mistérios com os encobertos pelas águas salgadas do mar. Escolher a árvore certa, esculpir nela o espaço onde os pescadores vão respirar, procurar, se angustiar e comemorar é tarefa grande. Dar acabamento à canoa, garantir que ela não perca o prumo mesmo quando seus ocupantes se desnorteiam é trabalho de paciência. Pintá-la, enfeitá-la, dar um nome a ela, para que conquiste sua identidade, ainda que seus usuários já não saibam mais quem são, é o sal da vida.


“Morning Star”, de Nantenaina Lova


Fazer tudo isso coletivamente, encarar cada etapa como uma celebração, reconhecer no encontro entre a floresta e o mar um mundo de possibilidades e fazer desse encontro uma união entre pessoas, suas artes, suas habilidades e seus sonhos, tudo isso faz a vida infinita, por mais breve que seja. Afinal, quem pode esquecer que a alegria é a prova dos nove… Nada disso, porém, parece encontrar lugar neste mundo em que vivemos. Um mundo onde existe cada vez menos espaço para a diversidade: a pluralidade de formas de viver desaparece rapidamente sob as dobras de aço do colonialismo combinado com o capitalismo, e a singularidade é alvo de incompreensão, repressão e violência pelas mãos dos que ali enxergam formas de subversão do que acreditam ser o único modo correto de estar no mundo.


O tema Povos e Lugares da 10ª Mostra Ecofalante é uma cunha neste mundo. Ajuda abrir uma fresta neste muro de certezas aparentemente inevitáveis e nos leva a pensar no diverso e na persistência da diferença. Os filmes exibidos permitem ver, por essa fresta, vários mundos. De alguns, apenas restos onde o caminho parece ser inventar maneiras de esquecer para enxergar algum devir. Outros, onde se sente a tensão da existência que pende por um triz. E, ainda, aqueles que já inventaram o esquecimento e agora lutam para rebrotar.



“Pesca Roubada”, de Gosia Juszczak


Do primeiro caso, de um mundo onde apenas vemos as ruínas, vem o filme Pesca Roubada, mas que poderia se chamar, como bem diz um de seus personagens, “uma pesca muito maldosa”. A pesca maldosa cujo fruto é roubado – de peixes a sonhos, de camarões a futuros – se desenha em duas frentes cruéis. A primeira, traduzida nas traineiras chinesas que pescam incessantemente a cada noite, com redes em cujos furos “não passam sequer dois dedos”, levando tudo que há no mar. E a segunda, sob a forma de uma fábrica de farinha de peixe também chinesa, cuja produção se torna ração animal para abastecer a China e a Europa. Peixes que eram pescados para subsistência não existem mais e os poucos que são pescados com dificuldade acabam vendidos para a fábrica de peixe. O resultado é a desestruturação de um mundo onde todo sonho passa pela travessia do Mar Mediterrâneo e por uma mudança para Europa.


A “pesca muito maldosa” é mais uma tragédia que se abate sobre o povo da Gâmbia. Um dos menores países da África, cercado pelo Senegal, sua economia depende do rio Gâmbia, da agricultura e da pesca. Já no século IX, a região onde está a Gâmbia era alvo de um comércio “muito maldoso”, de pessoas escravizadas, ouro e marfim. Desde então, portugueses e ingleses herdaram esse comércio dos árabes e seguiram com a exploração das pessoas, como escravas, e dos recursos existentes. Se não há mais hoje comércio de pessoas escravizadas, há uma espécie de acordo tácito no qual a Europa lucra com essa mão-de-obra desesperada por esquecer seu mundo e inventar um futuro, ao mesmo tempo que se assegura a persistência dos mecanismos que mantêm a África subalternizada.