Diversidade de saberes

Atualizado: 1 de Set de 2020

Para falar sobre diversidade de saberes, vamos iniciar esse texto da perspectiva inversa, relatando, brevemente, como se deu, ao longo da história, a homogeneização de saberes. Para isso, duas personagens assumem extrema importância: a Universidade e a Ciência.

Embora recente no Brasil, a Universidade está entre as Instituições mais antigas do mundo. Cursos de estudos gerais surgem em cidades europeias a partir do século IX, consolidando-se como Universidade a partir do século XIV. A magnitude de sua influência no ocidente fica clara no trecho a seguir do discurso de Anísio Teixeira (que depois foi publicado na Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos sob o título de Uma Perspectiva da Educação Superior no Brasil):

"Foi na Idade Média que ela [a instituição universitária] de fato realizou a verdadeira unificação da cultura chamada ocidental. A cultura da Europa foi unificada por essa universidade medieval que surgiu nas alturas dos séculos XI e XII, e que elaborou realmente um trabalho extraordinário de unificação intelectual do pensamento humano naquela época. Essa universidade, que chega a seu clímax, a seu ápice no século XIV, entra depois num período de consolidação tão rígida e tão uniforme que verdadeiramente se torna uma das grandes fôrças conservadoras do mundo."

Ao longo de sua história, a Universidade, como Instituição, sofreu transformações. A universidade dos tempos modernos teve sua origem no modelo germânico, frequentemente atribuído a Humboldt, em 1810, que trazia como principal diretriz a busca pela verdade, priorizando, para tal, atividades de pesquisa científica. No entanto, algumas características foram conservadas, entre elas, o isolamento (geográfico e social) entre universidade e sociedade.

O século XIX não foi importante apenas para a Universidade, mas também para a Ciência. Paul Feyerabend, filósofo da ciência, relata em seu livro A Ciência em uma Sociedade Livre que, embora nos séculos XVII, XVIII e XIX a Ciência fosse “uma das muitas ideologias que competiam entre si”, nos séculos XIX e XX “sua oposição é destruída”, e ela se transforma em um dogma, caracterizando o que ele chama de uma simbiose do Estado e da Ciência.

Dessa forma, tem-se, a partir do século XIX, o estabelecimento da Ciência (em termos de pesquisa científica) e da Universidade (em seu modelo moderno) como importantes elementos da sociedade. Entretanto, como destacado acima, o isolamento da universidade e, portanto, da ciência ali desenvolvida, persistiu (no Brasil, a expansão do Ensino Superior, por exemplo, é um fenômeno que se observa apenas a partir dos anos 2000), de forma que uma parcela restrita da população poderia ter acesso a elas.

Tal restrição torna-se ainda mais grave se considerarmos o papel que a ciência possui na sociedade atual. Feyerabend considera que a consolidação da ciência foi tamanha que ela se transformou em um dogma, comparando sua posição atualmente com aquela que a Igreja ocupava na Idade Média. Em uma sociedade em que a Ciência é restrita a uma parcela da população e, paralelamente, é incontestável e utilizada sozinha como critério para a tomada de decisões, outros saberes são negligenciados, suprimidos e oprimidos. Nesse sentido, podemos estabelecer um paralelo entre o relato de Anísio Teixeira, sobre o papel de unificação intelectual que a Universidade teve durante a Idade Média, e o que Feyerabend relata: com a supressão da pluralidade de saberes inerentes à diversidade de culturas e a supervalorização da ciência, caminha-se para uma homogeneização do conhecimento.

O retrato da ciência como dogma pode soar exagero ou até absurdo para alguns, mas mesmo cientistas observaram o fenômeno em suas áreas de pesquisa. Em uma edição especial da revista The Journal of Environmental Education, pesquisadores da área de Educação Ambiental publicaram estudos que apontam para uma forma de colonização intelectual dos países do Norte global sobre os do Sul global. No texto que introduz a edição, Rodrigues e colaboradores destacam que o conhecimento produzido no Norte “seletivamente ganha autoridade e, provavelmente, suprime vozes, histórias, práticas, e teorias do Sul global, assim como de partes marginalizadas do Norte pobre”. Esse ganho seletivo de autoridade sustenta a ideia de dogma, em que tal conhecimento é aceito como verdade, tido como incontestável e replicado sem crítica.

Feyerabend discorre sobre o papel que ciência deveria assumir em uma sociedade livre, no livro supracitado, dizendo que:

"Uma sociedade livre é aquela em que todas as tradições têm os mesmos direitos e acesso igual aos centros de poder (...) Uma tradição recebe esses direitos não em virtude da importância (o valor em dinheiro, aliás) que ela tem para pessoas externas a ela, e sim porque dá sentido à vida daqueles que participam dela. Mas ela pode também interessar às pessoas externas. Alguns tipos de medicina tribal, por exemplo, podem ter melhores meios de diagnosticar e tratar doenças (mentais e físicas) que a medicina científica atual, e algumas cosmologias primitivas podem nos ajudar a ver, em perspectiva, as ideias predominantes. Portanto, dar igualdade às tradições não é apenas correto, mas também extremamente útil. "

A conscientização – em partes – da comunidade científica sobre a importância de saberes não-acadêmicos levou, inclusive, ao desenvolvimento da abordagem de Ciência Cidadã, em que conhecimentos e percepções da sociedade em geral são levados em conta e incorporados a pesquisas científicas. Saberes indígenas, quilombolas, ribeirinhos, entre outras comunidades tradicionais, que historicamente foram (e ainda são, em grande parte) desvalorizados e tidos como inferiores pela comunidade acadêmica vem despertando o interesse dos cientistas, não como objeto de estudo, mas como conhecimentos a serem englobados na condução de pesquisas e consolidação de teorias.

E não é só porque a ciência passou a considera-los válidos que esses saberes devem ser respeitados. Estamos de acordo com Feyerabend quando ele diz, no trecho acima destacado de seu texto, que tradições devem ter os mesmos direitos e acesso a centros de poder devido à sua importância e sentido que dá à vida das pessoas que a integram. Nesse sentido, e pensando na construção de sociedades igualitárias, valorizar a diversidade de saberes deve estar na raiz da transição para a sustentabilidade, considerando-a integralmente, não só da perspectiva ambiental, mas também sociocultural. Dessa forma, conhecimentos tradicionais e locais, produzidos em diálogo com o território em que se encontram, devem ser valorizados não apenas do ponto de vista cultural, como expressão de uma cultura diferente da dominante, mas devem ter suas vozes ouvidas em instâncias políticas e de tomada de decisão.

Por fim, destacamos o trecho a seguir, extraído do livro Sustentabilidades, Gestão Pública e Hortas Escolares: perspectivas diante da crise socioambiental, que sintetiza as ideias desenvolvidas ao longo desse texto:

"A ação educativa, sobretudo para sustentabilidade, não deve ser vista como estanque, mas sim a partir da pluralidade de saberes, contextualizada em localidades e dialógica entre os diversos atores sociais no território. Dessa forma, a constituição de uma nova Racionalidade Ambiental para educação e para sustentabilidade deve partir de uma episteme pautada na complexidade de atores e interações agindo ativamente sobre os espaços."

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Referências (na ordem em que são citadas):


TEIXEIRA, Anísio. Uma perspectiva da educação superior no Brasil. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Brasília, v.50, n.111, jul./set. 1968. p.21-82.

Feyerabend, Paul K. A Ciência em uma sociedade livre. Tradução Vera Joscelyne. São Paulo: Editora Unesp, 2011. 288 p.

Cae Rodrigues, Phillip G. Payne, Lesley Le Grange, Isabel C. M. Carvalho, Carlos A. Steil, Heila Lotz-Sisitka & Henriette Linde-Loubser (2020) Introduction: “New” theory, “post” North-South representations, praxis, The Journal of Environmental Education, 51:2, 97-112, DOI: 10.1080/00958964.2020.1726265

Arruda, L. G. L.; Laham, B. S.; Aires, F. M.; Soto, G. A. T. (orgs). Sustentabilidades, Gestão Pública e Hortas Escolares: perspectivas diante da crise socioambiental. São Paulo (SP), 2020. Disponível em: https://grupohortasbiousp.wixsite.com/hortas/publicacao