As relações entre ambiente e saúde em saberes e práticas tradicionais

Atualizado: Mar 24

Conforme divulgamos em nossas redes, ao longo de 2021 o tema principal a ser explorado pelo Extensão Natural será Saúde Pública e Meio Ambiente, dimensões que se articulam na criação do conceito de Saúde Planetária. No texto Mas o que é Saúde Planetária?, publicado em nosso blog no dia 21 de janeiro, adotamos a seguinte definição: "Partindo da integração entre a saúde humana e a saúde do meio ambiente, modernizando o que era chamado saúde única, esse conceito evidencia as reciprocidades entre os sistemas políticos, econômicos e sociais na determinação dessas interações e da qualidade de cada um desses elementos."


Em uma ampla revisão sistemática de artigos científicos¹, o Dr. Enrique Barros encontrou a primeira referência ao termo Saúde Planetária no ano de 1998, em um artigo de D. M. J. S. Bowman, denominado Death of biodiversity - the urgent need for global ecology (em tradução para o português, Morte da biodiversidade - a necessidade urgente de ecologia global). Faz pouco tempo, não é? Mais recente ainda foi o emprego amplo desse termo pela comunidade científica: apenas a partir de 2014 ele começa a aparecer em mais artigos, com um crescimento expressivo do uso do termo em 2016.


Dessa forma, quando falamos de Saúde Planetária, estamos falando de um termo recente no meio acadêmico. Mas a noção da reciprocidade de relações entre meio ambiente e saúde humana está presente na cultura de diversos Povos e Comunidades Tradicionais, conforme o exemplo que apresentaremos na seção a seguir.



No artigo Territorialidades, saúde e ambiente: conexões, saberes e práticas quilombolas em Sergipe, Brasil², Roberto dos Santos Lacerda e Gicélia Mendes partem da abordagem ecossistêmica em saúde para analisar saberes e práticas de comunidades quilombolas. A abordagem ecossistêmica em saúde aproxima-se do conceito de Saúde Planetária por seu caráter relacional e transdisciplinar, fugindo de olhares simplificadores e reducionistas para compreender a complexidade das articulações entre meio ambiente e saúde humana. Outro ponto que orienta a pesquisa é o conceito de territorialidade, que parte da compreensão do território como algo que não se limita ao espaço físico. Para os autores,


(...) o território das comunidades tradicionais é muito mais que um simples espaço de reprodução econômica. É "chão" das relações sociais, das representações do imaginário mitológico e religioso que guiam o saber e o fazer dessas populações sobre o meio físico onde habitam, incluindo as práticas de saúde, ou seja, o espaço físico pode ser considerado como parte integrante dessas populações (Lacerda e Mendes, 2018, p. 110).


Nesse sentido, a territorialidade pode ser considerada como "a forma através da qual um determinado grupo social se apropria, vivencia e experimenta o território" (p. 110).


O objetivo do artigo de Lacerda e Mendes é analisar como as territorialidades de cuidado em saúde contribuem para a conservação do meio ambiente nas comunidades quilombolas. A pesquisa foi realizada em duas comunidades quilombolas de Sergipe, a comunidade do Mocambo e a comunidade de Sítio Alto.


Os autores encontraram três tipos de territorialidades presentes nas comunidades que articulavam as relações entre saúde e meio ambiente. A territorialidade da resistência é um importante traço das comunidades analisadas, uma vez que a própria história de formação dos quilombos e sua manutenção nos dias de hoje perpassam por movimentos de resistência. Nas relações entre saúde e meio ambiente, a territorialidade da resistência aparece como importante fator para a manutenção da saúde da comunidade frente à falta de assistência à saúde prestada, historicamente, pelos governos. Uma das formas de garantir que a comunidade permaneça saudável é por meio da alimentação, assegurando sua soberania e segurança alimentar através de um banco de sementes crioulas. Em um país cujo avanço da fronteira agrícola, apoiada no uso de sementes transgênicas, põe em risco a manutenção e sobrevivência dessas comunidades, o banco de sementes crioulas é representativo da territorialidade da resistência tanto para a manutenção da saúde quanto para a conservação do meio ambiente.


A territorialidade do cuidado é a principal permeadora das relações entre saúde e meio ambiente nas comunidades estudadas. O cuidado, evidente nas práticas de saúde, mas também nas manifestações culturais, como histórias e danças de roda, se estende para além das pessoas, alcançando, também, os seres não humanos. Ele se manifesta, por exemplo, na relação com cachorros, alimentados por um banquete durante a Festa de São Lázaro para prevenir a ocorrência doenças (incluindo zoonoses; no uso racional das plantas medicinais, com o cuidado para que aquelas prejudiciais aos peixes não atinjam os rios; na manutenção do banco de sementes crioulas; e na relação com os recursos naturais no geral. Tais práticas, que cuidam da saúde das pessoas, também cuidam (e são dependentes) da conservação do meio ambiente, aproximando-se da abordagem ecossistêmica em saúde. Segundo os autores,


Na perspectiva da territorialidade do cuidado, uma pessoa só é uma pessoa por meio de outras pessoas e também por meio de todos os seres do universo. Cuidar 'do outro', portanto, também implica o cuidado para com o meio ambiente e os seres não humanos (Lacerda e Mendes, 2018, p. 115)


Por fim, a territorialidade da esperança se articula com a resistência e cuidado nas relações entre saúde e ambiente. As projeções para o futuro dos membros das comunidades estudadas integram a esperança de melhoria de condições de vida, enquanto se conservem seus aspectos culturais, às perspectivas de conservação e restauração ambiental, com a esperança de recuperação de florestas e paisagens que já não existem.


A partir das três territorialidades descritas e das relações entre saúde e ambiente expressas em cada uma delas, Lacerda e Mendes identificam, nos saberes e práticas das comunidades quilombolas, uma harmonia entre a promoção da saúde e a conservação ambiental e cultural dos quilombos. Sendo assim, argumentam que é papel da academia conhecer e aprender com essas comunidades, de forma a ampliar possibilidades e superar limitações na compreensão da ciência, inclusive no que tange as relações entre meio ambiente e saúde.



A partir do artigo apresentado na seção acima, torna-se claro que conceitos e termos emergentes na academia, embora possam representar novidades ao meio científico, podem estar presentes nas práxis de comunidades tradicionais há séculos. A própria comunidade científica vem identificando limitações na construção de seus saberes. Como exemplo, podemos citar um artigo de 2018, da revista científica Nature Sustainability, em que os autores, Nagendra e colaboradores³, ressaltam que há uma dominância de países do Norte global na produção de conhecimento acadêmico na área de urbanização, o que constitui um desafio para a condução adequada dos problemas decorrentes dos processos de urbanização e da discussão sobre sustentabilidade urbana em países do Sul. Aprofundando-se mais na discussão dessa desigualdade, em artigo de 2020 da revista The Journal of Environmental Education, Rodrigues e colaboradores4 argumentam que a rápida produção de conhecimento pode ter como consequência a descontextualização de conhecimentos locais, contribuindo para uma colonização intelectual do Norte sobre o Sul e para a supressão de vozes, histórias, práticas e teorias do Sul global.


Se considerarmos esse contexto, o que o termo Saúde Planetária traz de novidade? Novamente, recorremos à dissertação do Dr. Enrique Barros² para começar responder a essa pergunta:


Dentro desse contexto, a Saúde Planetária surge como uma das mais promissoras formas de articular os mais distintos ramos das Ciências da Vida, Ciências Sociais e ditas Ciências Exatas, com saberes populares e/ou tradicionais, para otimizar a prática em saúde (Barros, 2019, p. 36)


A perspectiva de Saúde Planetária integra saberes acadêmicos de diversas áreas para a construção de um mundo mais saudável, abordando, inclusive, a principal problemática socioambiental de nossa geração: as mudanças climáticas globais. Nesse sentido, ela tem o potencial de unir pesquisadores de diversas áreas para compreender e propor soluções aos grandes desafios que encaramos, de natureza transdisciplinar. No entanto, ressaltamos a necessidade da colaboração entre os saberes acadêmicos e tradicionais nesse processo. Conforme vimos no artigo de Lacerda e Mendes, apresentado na seção anterior, determinadas práticas e saberes tradicionais se baseiam em relações harmoniosas entre ambiente e saúde, compondo, por si só, soluções possíveis às problemáticas socioambientais. Além disso, precisamos garantir que conceitos emergentes na academia, especialmente originados em países do Norte global, não silenciem e ofusquem os saberes produzidos em nossos territórios, sejam eles tradicionais ou acadêmicos. Dessa forma, o compartilhamento e colaboração entre a diversidade de saberes produzidos no Brasil pode contribuir para a construção de uma Saúde Planetária que acolha a diversidade de pessoas que aqui habita.



Notas e referências:

¹Disponível em sua dissertação, denominada Saúde Planetária: Um novo campo de estudos nas Ciências da Vida?, de 2019.

²Roberto dos Santos Lacerda e Gicélia Mendes, 2018. Territorialidades, saúde e ambiente: conexões, saberes e práticas quilombolas em Sergipe, Brasil. Publicado na revista Sustentabilidade em Debate - Brasília, v. 9, n. 1, p. 107-120.

³Nagendra e colaboradores, 2018. The urban south and the predicament of global sustainability. Publicado na revista Nature Sustainability, v. 1, p. 341-349.

4 Rodrigues e colaboradores, 2020. Introduction - New theory, post North-South representations, praxis. Publicado na revista The Journal of Environmental Education, v. 51, n. 2, p. 97-112.