A saúde planetária que precisamos: revelando os desafios da saúde maternal e infantil.

Atualizado: Mar 6

por Bruna Bastos, traduzido por Beatriz Sinelli Laham e Luís Gustavo Arruda.


Para mudar o mundo, nós precisamos mudar primeiro a forma como os bebês nascem”. — Michel Odent


Imagem por Annie Spratt, disponível no Unsplash


Desde que a concepção de “saúde planetária” se desdobrou em sustentabilidade e na vida humana no planeta, apresenta-se então como especialmente preocupada com os direitos humanos. Os direitos das mulheres são direitos humanos. Independentemente disso não ser uma problemática nova, esses direitos continuam em segundo plano. Mulheres ao redor do mundo têm sofrido com a violência institucional e com a falta de acesso ao cuidado com a saúde. A experiência do nascimento, que é um momento importante na vida humana, tornou-se por vezes um momento estressante. Nesse sentido, os nossos esforços em direção à saúde planetária devem ser conjuntos, e isso requer tanto a melhora da saúde das mulheres como a manutenção dos seus direitos humanos.



O problema das altas taxas de cesarianas


Em 2019, durante a Assembleia Mundial de Saúde, a Organização Mundial da Saúde (WHO) e a Organização Pan-Americana de Saúde (PAHO) declararam 2020 como o Ano Internacional das Enfermeiras e Parteiras. A data comemorativa busca reconhecer o trabalho feito por essas profissionais, e melhorar suas condições de trabalho, educação e desenvolvimento profissional. No entanto, 2020 se apresentou como um ano de desafios ainda mais profundos. O tópico ficou em segundo plano diante da emergência da pandemia da COVID-19.


O artigo “A tragédia da COVID-19 no Brasil” aponta que desde o início da pandemia até 18 de Junho, 2020, 160 mulheres, grávidas ou que deram à luz recentemente, morreram por conta da COVID-19 ao redor do mundo; 124 foram no Brasil, o que corresponde a 77% das mortes em todo o mundo. Como apontado no levantamento, a taxa de mortalidade foi maior considerando casos identificados durante o período pós-parto, provavelmente refletindo o cenário dos sintomas da infecção.



Mortes de mulheres por COVID-19 durante a gravidez ou período pós-parto (Jan-Jun 2020). Adaptado de Takemoto et al.. The Tragedy of COVID-19 in Brazil: 124 maternal deaths and counting. International Journal of Gynecology and Obstetrics, 2020; publicação original.


Os autores argumentam que a taxa de cesarianas no país está entre as mais altas no mundo e, então, persistem as dúvidas sobre o aumento no risco de morbidade e mortalidade no pós-operatório para pacientes com COVID-19 que passaram pelo procedimento. Esses resultados chamam atenção para os riscos da cesariana, mas isso não é um problema novo, criado pela pandemia. É um problema antigo e não é de interesse somente do Brasil.



Taxas de cesarianas: % de nascimentos que adotaram o procedimento; publicação original.


Existem estudos que provam que cesarianas podem salvar vidas em nascimentos de alto risco, mas sem indicação clínica, podem ser associadas a um risco elevado de ruptura uterina, placentação anormal, gravidez ectópica e nascimento precoce ou tardio. Além disso, os bebês recém-nascidos podem ter diferenças hormonais, físicas, bacteriológicas e exposições clínicas que podem alterar sua fisiologia. Os riscos a curto prazo incluem alteração no desenvolvimento imune, um aumento na probabilidade de alergia, atopia, asma e reduzida diversidade de microbiota intestinal.


Desde 1985, a WHO considera que a taxa ideal para ocorrência de cesarianas fique entre 10 e 15%. Atualmente, a América Latina é a região com as maiores taxas de cesarianas no mundo (44,3%). A partir desses dados, o Congresso Mundial de Ginecologia e Obstetrícia considera uma “epidemia” de cesarianas entre as equipes médicas, porque são menos assistidas para apoiar nascimentos tradicionais difíceis, assim como pela conveniência de agendar um dia para entrega, conforme importantes benefícios econômicos em clínicas particulares, entre outros aspectos.



Violência obstétrica: um problema silencioso


A violência obstétrica é frequentemente um problema subjugado. Apesar da violência ter o potencial de acontecer em qualquer lugar, a qualquer hora, alguns espaços são particularmente vulneráveis. Um deles é o ambiente hospitalar, de centros de saúde pequenos aos maiores, onde pacientes estão, majoritariamente, em condições de vulnerabilidade. De acordo com a PAHO, a violência pode ser definida como qualquer ato ou uso de poder que resulte ou possa resultar em sofrimento psíquico, sexual ou mental, incluindo atos como ameaças, coerção ou privação arbitrária de liberdade, tanto na vida pública como privada.


Ainda em acordo com a Organização, relatos de mulheres grávidas confirmam a presença de diferentes formas de violência, partindo da negligência ao abuso, desrespeito, mal tratamento tanto durante como antes do nascimento, que ocorrem em instituições privadas e públicas, tomando vantagens num momento sensível de vulnerabilidade. Forçar ou constranger uma mulher a realizar uma cesariana desnecessária é também uma forma de violência. A maioria das mulheres grávidas são mulheres cis-gênero, um termo para pessoas cuja identidade de gênero corresponde ao sexo atribuído no nascimento. Mas é sempre importante relembrar que homens transgêneros e pessoas não-binárias são vítimas ainda maiores da violência obstétrica. É necessário agir diante dessa problemática e procurar soluções em parceria com as pessoas que são afetadas por isso.



Aprendizados do Ecofeminismo


Ecofeminismo, também conhecido como feminismo ecológico, é um ramo do feminismo que examina as conexões entre as mulheres e a natureza. A palavra “ecofeminismo” foi usada primeiramente em 1970, mas a relação entre ecologia e as vidas das mulheres sempre foram particularmente importantes, sobretudo para as mulheres do Sul Global que vivem em comunidades tradicionais.


O nascimento é um dos ciclos da natureza. O parto é um fenômeno humano natural, mas, desnecessariamente, submetido à hospitalização e uso excessivo de remédios que podem privar a mulher de viver essa experiência. As mulheres precisam da liberdade para viver esse momento, rodeadas de respeito e afeto. Além disso, elas devem ter o direito de escolher como e onde elas preferem dar à luz. É por isso que o ecofeminismo se aproxima da busca por um parto humanizado.



Parto humanizado e a valorização das parteiras tradicionais: algumas possibilidades


As discussões sobre o parto humanizado também se tornaram expressivas durante os anos 1970, por conta dos movimentos feministas que demandaram direitos sexuais e reprodutivos, mas também por conta de obstetras que compreenderam a importância de um nascimento natural. O parto humanizado é um conjunto de práticas e procedimentos que buscam reajustar o processo de nascimento a partir de uma perspectiva menos medicalizada, compreendendo tanto a mulher quanto a criança num olhar mais humano e empático.


Os obstetras que defenderam o parto humanizado citaram o trabalho das parteiras tradicionais, que tratam mulheres com paciência e respeito durante todo o acompanhamento. Elas proviam cuidado holístico, tornando possível que as mulheres escolhessem a posição para nascimento, se alimentando e se hidratando, e algumas vezes até cantavam e rezavam. Para muitas, um toque de cuidado realmente confortável. A profissão das parteiras tradicionais tem diminuído por conta da excessiva hospitalização durante o parto, assim como por conta das barreiras sociais e políticas que encontram criadas pelo estigma errôneo de que suas práticas são “antigas” ou “desatualizadas”. É por isso que é tão importante valorizar e fortalecer seu trabalho.


Os problemas das altas taxas de cesarianas desnecessárias e da violência obstétrica no mundo afetaram a saúde das mulheres e impediram que elas exercessem seus direitos humanos. Portanto, a saúde planetária que precisamos é a que dá atenção adequada para essas problemáticas.



Sobre a Autora: Bruna Bastos é estudante de mestrado em Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação Internacional na Universidade Brasília e é aprendiz na Women Leaders for Planetary Health pela turma de 2020.

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Este texto foi primeiramente publicado pela plataforma da Women Leaders for Planetary Health. Junte-se a este movimento seguindo no Twitter e no Instagram